15.01.09

em 10/12/2006

tudo pensado, planejado, milimetricamente organizado. nenhum pensamento fora do lugar. foi assim durante uns bons anos e eu nunca soube nem precisei saber outro jeito de levar a vida. estava tudo dando certo até aquele dia em que aconteceu algo que eu não me lembro muito bem o que foi, mesmo porque não era importante. o que importa é que alguma coisa saiu do lugar - ou pior ainda, voltou para o lugar - na minha cabeça e eu nunca mais me reconheci.
depois daquilo, já não fazem diferença a casa, o marido, os filhos, o trabalho, o chopp às sextas-feiras com os amigos semi-desconhecidos e o encontro quase semanal com o amante: essa angústia sempre acaba me pegando lá pelo penúltimo cigarro do maço. e a cada dia o último cigarro fica mais doloroso de ser fumado.

eu só preciso continuar seguindo o fluxo e tudo vai acabar voltando ao normal.
eu acho.

07.07.07

excerto de uma briga

categoria: quase ficção

e posso falar só mais uma coisa? você não sabe amar. você não ama ninguém, nunca. seu ele nunca é o mesmo ele, ninguém nunca é especial, ninguém tem uma cara, um cheiro, um jeito - a não ser que você invente. você não se entrega, você só toma o que parece estar à sua disposição. você usa, usa, até cansar. você não conhece ninguém de verdade. você só sabe projetar esse seu enorme ego em cima dos outros e finge estar amando outro quando, na verdade, está amando a si mesma. você faz dos outros um espelho no pior sentido. condena quem se aproxima de você por defeitos que não são deles, mas seus. eu tenho pena deles, sabia? acham que descobriram algo, mas estão sendo enganados, o que faz do seu séquito um séquito de idiotas. você acha isso lisonjeiro? pois é tão idiota quanto eles. idiota sou eu também, gastando minha saliva e meu tempo com você. porque você é assim, usa até quem você não conhece: engana, trapaceia e rouba. se apropria e finge que é seu. quer saber? você não é nada. você acabou de deixar de existir.

[não sei se a briga pára por aí]

edit: quem de dentro de si não sai/vai morrer sem amar ninguém.

29.04.07

pra não falar de mim, falo dos outros.

escrevi há tempos (algum ponto de julho do ano passado), sobre uma pessoa que eu nem cheguei a conhecer. e que provavelmente nunca conheceria, mesmo que ela ainda estivesse viva.

eu acho que ela era assim.

olhos de alguma cor no meio do caminho entre castanho-com-aura-de-verde e azul-celeste. um pouco pálida, às vezes. cabelos castanhos, encaracolados de um jeito que ela sempre odiou. trauma de adolescência por conta das pernas muito finas. perfume delicado de flor, personalidade forte.
sentiu medo quando ficou grávida. não apertou a mão de ninguém durante o parto. depois, passou dias na beira do berço, olhando aquele menino rosado que, de um jeito ou de outro, era dela. o pai escolheu o nome, ela aprovou.
tratava-o como amigo, não como filho. se separaram os dois, sem tristeza. ela sentia a presença dele sempre - especialmente na hora do jantar, sentada de frente para a cadeira vazia. se davam bem, como conhecidos que só se viam ocasionalmente, ávidos para contar novidades. a timidez e a cumplicidade calavam os dois, que se olhavam e só. ele ia embora, ficava a cadeira vazia e alguma coisa mais.
ele cresceu, assumiu compromissos (talvez grandes demais pra uma pessoa tão jovem) e já não tinha mais tanto tempo para ela. ele sentia a presença dela sempre - especialmente quando dirigia para a faculdade, olhando o banco vazio do passageiro.

24.01.07

em dez de dezembro

originalmente escrito para o inspiração.

tudo pensado, planejado, milimetricamente organizado. nenhum pensamento fora do lugar. foi assim durante uns bons anos e eu nunca soube nem precisei saber outro jeito de levar a vida. estava tudo dando certo até aquele dia em que aconteceu algo que eu não me lembro muito bem o que foi, mesmo porque não era importante. o que importa é que alguma coisa saiu do lugar - ou pior ainda, voltou para o lugar - na minha cabeça e eu nunca mais me reconheci.
depois daquilo, já não fazem diferença a casa, o marido, os filhos, o trabalho, o chopp às sextas-feiras com os amigos semi-desconhecidos e o encontro quase semanal com o amante: essa angústia sempre acaba me pegando lá pelo penúltimo cigarro do maço. e a cada dia o último cigarro fica mais doloroso de ser fumado.

eu só preciso continuar seguindo o fluxo e tudo vai acabar voltando ao normal.
eu acho.

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