27.07.09
o que mais me incomoda no modo como o racismo é tratado no brasil é o mecanismo perverso usado para jogar a culpa pelo preconceito na vítima (como acontece com as vítimas de estupro), além da crença de que quem vê preconceito em vários lugares e de vários jeitos é, na verdade, paranóico e leva tudo muito a sério. afinal de contas, macaco é só um bichinho simpático e o uso dessa palavra para se referir a uma pessoa negra não quer dizer nada, o negro não chega à universidade porque não se esforça o suficiente e o fato de o cabelo liso ser o supra-sumo do ultra-pop capilar é mera coincidência. NOT.
é muito frustrante para mim quando as pessoas acham que eu, negra, moradora da periferia de são paulo e (ex-)estudante de uma universidade pública sou a prova de que “todo mundo pode, é só querer”. isso é muito, muito mau. não só porque eu sei o quanto foi difícil para mim chegar onde cheguei e porque sei que tive muitos fatores a meu favor que outras pessoas negras não tiveram (como a oportunidade de fazer um bom cursinho), mas porque eu olhava para os lados na aula e me sentia um espécime raro. isso não deveria acontecer em um país que tem tanto orgulho de ser uma democracia racial e fica mais longe disso a cada vez que essa expressão é dita (mesmo porque essa democracia racial provavelmente começou com um estupro).
imagino que seja difícil para uma pessoa que não é negra entender como o racismo afeta uma pessoa que é alvo dele. de qualquer jeito, acredito que isso não seja empecilho para que se constate o fato de que ele existe e está em vários lugares, das revistas de moda à distribuição de renda. eu tenho noção de que muito da minha baixa auto-estima tem a ver com isso, mas temo por quem não sabe, como as meninas que acham normal alisar seu cabelo “ruim” e desdenham quem não faz o mesmo, meninas que são tão vítimas do racismo quanto as que percebem que nada disso é por acaso. e comentários com o do danilo gentili certamente mais atrapalham do que ajudam, fazendo mais gente achar que é tudo coincidência, porque somos todos humanos e, portanto iguais. sim, danilo gentili, somos biologicamente iguais, mas essa constatação nunca impediu que diferentes tratamentos fossem dispensados a pessoas com diferentes concentrações de melanina. e fingir que isso não acontece é hipocrisia, burrice e, sim, racismo.
ver o ótimo post da marjorie sobre o caso gentili, além dos links para outros posts sensacionais sobre racismo.
03.05.09
fui à virada cultural ontem e achei melhor do que ano passado. as atrações, no geral, não eram tão interessantes quanto as do ano anterior, mas em compensação (e talvez justamente por isso) os palcos estavam menos cheios e a circulação estava mais fácil do que ano passado, quando era muito difícil andar de um show a outro ou mesmo mudar de posição durante um show. de resto, as coisas de sempre: gente bêbada, sujeira e tudo mais (ainda mais porque esse ano tinha um palco chamado “toca raul” - mais chamariz de maluco, impossível). coisas que são normais até certo ponto num evento desse porte, a meu ver. aí hoje me vem o feltrin dizendo que houve cenas de “escatologia e horror” durante a virada. peraí. eu não fiquei durante o evento todo (enquanto eu estou aqui ainda tem shows e exposições acontecendo pela cidade), mas duvido que o que quer que tenha acontecido justifique o uso desses termos e, independentemente disso, tenha sido diferente de qualquer outro evento cultural, pago ou não. sim, ainda há muito o que fazer em termos de estrutura e organização, mas acho louvável o esforço da prefeitura de continuar realizando a virada, com mudanças a cada ano. acho também que a virada cultural simboliza bem uma das coisas que eu gosto em são paulo, que é esse grande leque de coisas a se ver e fazer e de lugares a se visitar (que é o que eu mais gosto de fazer na virada: andar pela cidade à noite, vendo com outros olhos aquilo que a gente costuma deixar batido na correria dos outros dias). resumidamente, acho que a virada merece aplausos e deve continuar, mesmo com todos os problemas.
eis que na matéria da folha que eu linkei acima li os seguintes comentários:
[F]ica a sensação que 24 horas é muito para uma população “sem cultura” […].
(Clau Fer).
[I]nfelizmente, as cenas que eu vi me levaram a triste constatação de que SP não suporta eventos deste tipo. Digo até que pessoas como aquelas não merecem a oportunidade de participar de um evento desse tipo.
(juliana pires)
Enquanto as pessoas não souberem se comportar como humanos esse tipo de evento deveria ser cortado.
(Carolina Prazeres Goncalves de Castilho)
Uma pena que uma grande parcela do povo brasileiro não tenha a educação necessária para merecer um evento assim grandioso… É verdade que não se deve dar pérolas aos porcos…
(Linda Dias)
sério? sério MESMO? o problema da virada cultural é o “povo” (não a organização, o policiamento, etc…)? e a solução é não fazer o evento porque o “povo” NÃO MERECE? claro, é ridículo que todo ano a cidade vire um banheiro a céu aberto durante a virada, mas a solução é acabar com a virada? ou melhor ainda, deixar de fora os “mau educados” e só permitir que frequentem a virada os cultos, comportados e que, por um acaso, provavelmente poderiam pagar para ver esses shows e exposições em outros lugares, ao contrário dos “mau educados”, para quem a virada é uma oportunidade única (por mais que não aproveitada às vezes) nesse sentido? o buraco do vandalismo é muito mais embaixo e todo mundo sabe disso (aliás, a mesma prefeitura que organiza a virada me parece não tomar medidas reais pra resolver essas coisas), então não me venham com essa de que a culpa é dos vândalos e “ai que medo dessa gente, nunca mais vou à virada!”. o azar - e a hipocrisia classe-média - é de vocês.
27.04.08
queria muito deixar de ser refém da minha idiotice, além de viciada em auto-sabotagem (sem falar na autopiedade), mas é difícil. aparentemente não há como me livrar do habitus de loser que me persegue. culpa dessas frustrações e ressentimentos que eu venho acumulando desde sempre - o problema todo é que eu penso tanto nessas coisas que, não sei como, começo a achar que faz sentido que elas sejam assim: ou eu mereço ou sempre foi assim e sempre será, ponto. a conseqüência lógica é que tentar fazer algo ou mesmo esperar que algo mude não passa de perda de tempo. ou de novos ressentimentos e frustrações, dos fúteis aos existenciais.
fato é que eu estou ficando velha demais para isso. e quase acreditando que o meu destino (?) é ser sem graça e não ter o mínimo apreço por mim.
26.07.07
nós somos de uma geração que vive (e tem medo) uma vida ética e emocionalmente à deriva, diz um livro que eu li faz um tempo e sobre o qual já falei aqui, sem citar o nome, acho [tirei o nome do livro porque estava atraindo gente do google e isso é sempre perigoso]. diz ele ainda que o constante risco a que estamos sujeitos - sendo que o autor parte dos riscos provocados pelo novo capitalismo, considerando que estes se difundem pelos demais aspectos da vida do indivíduo - faz com que nosso senso de caráter seja gradativamente corroído.
e tem mais! o autor declara que a sociedade moderna é caracterizada pela desregulamentação do tempo e do espaço, desregulamentação esta que é a causa de sua superficialidade. não há mais a importância do aprendizado - a trajetória só é vista a partir dos pontos de mudança, como trocas de emprego, por exemplo. o autor chega a declarar que o aprendizado obtido ao longo da vida tende a ser descartado pela sociedade, por significar um possível prejuízo à adaptabilidade das pessoas e grupos.
nessa chave, o autor fala de como as relações pessoas, em especial as familiares, ficam submetidas à lógica do trabalho - a coisa da velocidade das mudanças e tudo mais - mas não conseguem adaptar-se perfeitamente a ela, o que nos leva de volta à história da deriva. o homem precisa cada vez mais do trabalho e é oprimido por este [um pouco marxista demais pro meu gosto, se você quiser saber]. ele precisa se relacionar com os outros, mas a relação só sobrevive enquanto é superficial1.
ética e emocionalmente à deriva. isso não é forte demais? às vezes eu acho que os intelectuais e a mídia, de forma geral, subestimam as pessoas, tanto as do lado mais forte (ou seja, os patrões maus e exploradores) quanto as do lado mais fraco (nós, resumidamente). parece que o livre-arbítrio simplesmente deixa de existir, ou então que o todo, que é mais que a maldita soma das partes2, é realmente algo poderoso e opressor.
eu concordo (e vejo!) a maioria dessas coisas, mas tendo a achar que a constante troca de emprego das pessoas não é meramente imposta pelo capitalismo, que é mais um catalisador ou um ponto de partida, do meu ponto de vista. se as pessoas quisessem continuar ficando 40 anos no mesmo emprego ou casados com a mesma pessoa, ficariam. tanto que tem quem ainda fique.
fato é, o capitalismo poderia se desfazer em milhões de pedacinhos (que passe um anjo e diga amém) ou ficar muito tempo no mesmo emprego poderia voltar a ser normal, ainda assim a maioria das pessoas continuaria trocando de emprego em intervalos regulares. o que aconteceu3 é que o capitalismo favoreceu uma tendência que as pessoas já tinham, mas que antes não era bem vista como agora. depois que pular de galho em galho passou a ser tomado como demonstração de características (agora) desejáveis, como audácia, não-acomodação ou qualquer outra assim, geral começou a fazer o que sempre queria ter feito, que é se livrar que quaisquer raízes ou responsabilidades. para mim, isso é muito mais deliberado do que se costuma acreditar. as pessoas gostam de não ter compromissos ou de tê-los apenas a curto prazo, tenho certeza.
eu e os textos sem fim, viu…
1 ele fala isso sobre as relações de trabalho, mas acho que não há problema em dizer que esta regra vale para as relações sociais em geral - ao longo do livro, o autor parece dar indícios de que concorda com essa idéia.
2 coisa que a gente aprende no primeiro ano das ciências sociais e nunca mais deixa de ouvir nos anos seguintes, mas há controvérsias, como em tudo nessa vida. e o “maldita” é por minha conta.
3 é opinião. não tenho como provar. aliás, tudo isso é especulação, por isso a categoria se chama “sociologia de boteco” e não simplesmente “sociologia”.
01.04.07
invariavelmente, não importa qual é o assunto ou o contexto, alguém chega com aquele clichê de que o não-conformismo é uma coisa boa. que contestar é necessário. que querer sempre mais é o mínimo que se espera de alguém. só que aparentemente ninguém lembra como é doído nadar contra a corrente ou querer o que não se pode ter. tomo o exemplo dos meus caros coleguinhas comunistas: acreditam piamente num negócio que empiricamente não deu certo e são atacados pelos descrentes de todas as formas possíveis (me incluo na turma dos descrentes e acrescento que os comunistas dão motivos para serem atacados, mas isso não tem nada a ver com o que eu estou dizendo). um exemplo mais tontinho é aquele que todo mundo já ouviu em alguma história ou novela, do menino pobrezinho que queria uma bola de futebol que nunca teria dinheiro para comprar e que dificilmente ganharia de presente. saber que é impossível não diminui a vontade que o menino tem de possuir a bola.
estou enrolando para, como sempre, chegar a mim. não sei de onde essa minha tendência a achar tudo ao meu redor (e tudo dentro de mim, claro) errado e carente de mudança. possivelmente receberia aplausos dos meus colegas comunistas se contasse isso a eles. a diferença é que a luta deles é contra algo externo e não palpável (alvo perfeito, não? você reclama, diz que não faz parte e, como não é nada concreto, ninguém pode dizer que você não faz nada para mudar). a minha está acontecendo nesse momento, aqui na minha cabeça, fruto de anos e anos de cultivo de caraminholas. e as mudanças que eu queria fazer precisavam de muito mais força de vontade minha e de uma ciência milhões de vezes mais avançada do que temos.
o mais assustador é que, na verdade, são mudanças absolutamente desnecessárias. os comunistas podem ser felizes com o capitalismo. o menino pode ter uma infância feliz sem a bola de futebol. e eu… bem, eu poderia simplesmente aprender a gostar de mim. se apegar a coisas idiotas acontece nas melhores famílias, pelo que parece.
e por favor relevem a minha preguiça de revisar o que escrevi. o calor derreteu alguns neurônios.
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